A onda “low cost” (e o confuso mercado brasileiro)

19/09/2018

Já reparou que toda nova empresa aérea lançada em qualquer parte do mundo diz que atuará no segmento "low cost"?

Essa verdadeira mania tomou definitivamente conta dos céus!

E não é preciso ir muito longe para se certificar disso. Aqui do lado, na Argentina, tivemos recentemente a criação da Flybondi e da Norwegian Argentina. Indo um pouquinho mais adiante chegamos ao Chile, onde a mais nova empresa é também de baixo custo, a JetSMART (além da SKY Airline, que já opera há alguns anos).

A Flybondi, argentina, planeja voar para diversos destinos brasileiros em breve.

Em qualquer país que se vá é enorme a chance de encontrar ao menos uma empresa atuando neste segmento. Custos baixos, tarifas idem!!! Em compensação oferecem muito pouco conforto e cobram por todo e qualquer extra, desde o despacho de bagagem até o sanduíche a bordo. E em muitos casos operam em aeroportos secundários, mais distantes.

aperto e comida paga....exemplos típicos
das cias. aéreas que atuam neste segmento.

Ah ta, mas o preço compensa, dizem muitos. E é fato, pode compensar mesmo, tanto que o "low cost low fare" virou essa febre toda e, ao que tudo indica, a maioria das empresas que atuam neste nicho tem obtido altos índices de ocupação e resultados financeiros muito positivos.

Vide por exemplo as gigantes Ryanair, EasyJet, Norwegian (essa mesmo que já abriu uma filial na Argentina e que em breve chegará também aqui, no Brasil), AirAsia, JetBlue, Southwest, IndiGo, Jetstar, entre outras.

Ryanair e easyJet são exemplo de sucesso no mercado low cost low fare

Mas e o Brasil?

Bem, o Brasil parece um mercado meio estranho...

A GOL, por exemplo, que nasceu "Low cost", é hoje líder no transporte de passageiros do segmento corporativo, o que não combina muito com uma "low cost" - da qual se espera transportar sobretudo passageiros que viajam a lazer.

A empresa investiu pesado nos últimos anos na melhoria de seu produto e, de fato, melhorou bastante. Wi-fi a bordo, lanches de melhor qualidade, espaço+, aeronaves novas, poltronas em couro, entre outros, foram muito bem percebidos e aceitos pelos seus passageiros.

Mas tudo isso veio, ano após ano, acompanhado por uma "deslowcostização" (essa foi boa....rsss) da empresa e, hoje, com preços médios bem mais altos do que lá atrás, em seu lançamento, a GOL parece muito mais uma empresa "padrão" do que uma empresa de baixo custo. O mesmo pode ser dito da Azul, que se denomina "low cost" mas oferece serviços de qualidade um pouco superior...e tarifas idem.

A GOL deu uma guinada positiva. Seu produto melhorou muito...seus preços, porém, também subiram de patamar e nada mais tem de "low fare"

A TAM (hoje LATAM), por outro lado, parece ter feito o caminho inverso. De uma empresa "padrão" (full service), com produto e serviços bem avaliados pelos clientes, foi aos poucos perdendo qualidade.

Hoje, sob comando chileno, é vista no mercado como uma empresa ultrapassada, com serviços decadentes. Assentos apertados, serviço reduzido ao máximo e cobrança de extras, como despacho de bagagem, marcação de assento e refeição a bordo...a LATAM se transformou em uma empresa "full service" com serviço de "low cost". Definitivamente perdeu foco e identidade. E clientes! Só não pode ainda ser considerada totalmente uma "low cost" porque o preço médio de suas passagens segue sendo muito alto, muito longe de uma "low fare". Seria então a LATAM uma "low cost high fare" ?

Cobrança por extras, como despacho de bagagem...

...e serviços cada vez piores...
a LATAM é hoje muito mais uma "low cost high fare"

Infelizmente (para o passageiro) a LATAM não está sozinha e muitas empresas aéreas tradicionais, do mundo todo, tem seguido essa linha ultimamente, sobretudo em seus voos regionais mais curtos. Serviços ruins, simplificados, preços altos!

Falando mais um pouco do nosso mercado doméstico há grande expectativa para que tenhamos por aqui, em breve, finalmente uma empresa genuinamente baixo custo (e com tarifas realmente baixas). A Norwegian já anunciou sua intenção de oferecer vôos internacionais de longo alcance, ligando Brasil à Europa. Mas há também, e o mercado torce por isso, a possibilidade dela realmente fincar pés no país e passar a atuar também em voos dentro do Brasil.

A Norwegian vem aí...quem sabe (e tomara) para agitar o mercado nacional.

Pena apenas que seguiremos sem uma opção de empresa realmente focada em qualidade, para contrabalancear. Há, certamente, demanda para ambos os tipos de atuação.

Por mais que os tempos sejam outros ainda existem companhias assim, cujo modelo de atuação rema contra a maré atual e segue investindo e apostando na qualidade. A maioria delas, porém, está bem longe de nós, por serem em sua quase totalidade empresas asiáticas e do Oriente Médio. Fazer o que, né?